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Imaginário insubmisso e mobilidades transculturais nas Américas

 

Aprovação CNPq 2008-2010

 

Coordenação Zilá Bernd ( UFRGS/UNILASALLE)

 

Pesquisadores

Aimée Bolanõs (FURG)
Cícero Galeno U. Lopes (Unilasalle)
Elena Palmero (FURG)
Licia Soares de Souza (UNEB)
Maria Bernadette Porto – (UFF)
Nubia Hanciau (FURG)
Pierre Ouellet (UQAM)
Rachel Bouvet (UQAM)
Raquel Rolando de Souza (FURG)
Rita  Olivieri-Godet (Rennes 2 Université de Haute Bretagne)
Valéria Brisolara (Unilasalle)
Zilá Bernd (UFRGS/UNILASSALLE)

 

Estudantes (doutorado)

Ana Lucia Paranhos (UFRGS)
Alcione A.Correa (UFRGS e UFPI)
Kelley Baptista (UFRGS)
Flávia C. Westphalen (UFRGS)

 

Estudantes (mestrado)

Carlos Meneguetti Scholles

 

Bolsista IC

Nicolas Alaor Poloni (PIBIC/UFRGS)
Henrique Bordini (voluntário – UFRGS)
Melissa Rubio dos Santos (voluntária UFRGS)

 

Objetivos específicos:

Organizar dicionário

 

Título: ASPECTOS DA MOBILIDADE CULTURAL (NAS AMÉRICAS)

O Dicionário será organizado a partir de “verbetes”, em ordem alfabética que, diferentemente do DFMLA, que elencou figuras concretas (feiticeira, malandro, profeta, viajante, etc), elencará figurações abstratas (conceitos) das mobilidades culturais, conforme lista abaixo. Cada um dos membros da equipe desenvolverá uma dessas figuras em artigo de no máximo 20 laudas, contendo uma introdução teórica, na qual o conceito será devidamente situado no tempo e conceituada de acordo com uma ou mais linhas teóricas, seguida de uma parte ilustrativa com exemplos das literaturas das Américas, produzidas em uma de suas quatro línguas dominantes.

 

LISTAGEM PROVISÓRIA DAS FIGURAÇÕES DAS MOBILIDADES:

1. Autoficção (Autofiction) - KELLEY  BAPTISTA
2. Braconagem (Braconnage) - NUBIA HANCIAU
3. Circulações urbanas (Circulations urbaines) – MARIA BERNADETTE PORTO
4. Deriva  (Dérive) - LICIA SOARES DE SOUZA
5. Deslocamento  (Déplacement) – ELENA PALERMO
6. Détour/retour  - ALCIONE Alves CORREA
7. Des (re)territorialização (Dé(re)territorialisation)- ANA LUCIA PARANHOS
8. Diáspora  (Diaspora) - AIMÉE BOLAÑOS
9. Flânerie   – HENRIQUE BORDINI e Zilá Bernd
10. Imaginação e Movimento (Imagination et mouvement)  – MELISSA RUBIO e ZILÁ BERND
11. Liquidez/fluidez (BAUMAN) – CARLOS  M. SCHOLES
12. Memória e movimento  (mémoire et mouvement) – RAQUEL ROLANDO DE SOUZA
13. Metáfora  (Métaphore)– NICOLAS A. F. POLONI E ZILÁ BERND
14. Migração/Migrância/Errância (Migration/errance) – RITA OLIVIERI-GODET (Rennes2)
15. Passagens linguísticas (Mobilités ou passages linguistiques)– VALÉRIA BRISOLARA
16. Movência, nomadismo (Mouvance/nomadisme)- ZILÁ BERND
17. Romance geográfico/roman géographique – RACHEL BOUVET
18. Tradução  (Traduction) - FLAVIA WESTPHALEN
19. Translação (Translation/transportation/transcedance) - PIERRE OUELLET
20. Transnacionais (identidades) (identités transnationales)– CICERO G.  LOPES
21. Variações (Variations) – ZILÁ BERND

 

RESUMOS

AUTOFICÇÃO (Kelley B. Duarte)
Se antes a autoficção podia ser entendida como um viés da autobiografia, restrita em suas aplicações, hoje ela encontra um terreno fértil em narrativas do eu de escritores migrantes no Quebec. Isso porque, na atualidade, o termo “autoficção”, instaurado por Serge Doubrovsky em 1977, vem ganhando dimensões reveladoras de sua mobilidade, apontadas por teóricos como Simon Harel e Madeleine Ouellette-Michalska. Exemplar dessa nova amplitude do termo está a produção de Régine Robin, para quem a autoficção é definida como “um gênero híbrido, no caminho do meio entre a autobiografia e a ficção, onde o eu se divide em vários personagens fictícios” (Le Golem de l’écriture: de l’autofiction au cybersoi, 1997). Para a escritora, que mescla teoria, ficção e autobiografia em sua obra, a tendência contemporânea é enredar gêneros diversos e o escritor migrante torna-se representante dessa nova “onda transcultural” por ser ele o reflexo de uma cultura plural. Diante da impossibilidade de se produzir uma escrita homogênea por conta da diversidade cultural vivida por escritores como R. Robin, a proposta desse artigo é apontar a autoficção enquanto gênero que reflete a escrita heterogênea do eu, contemplando o múltiplo e o diverso das identidades autoficcionais.

 

BRACONAGENS  (Nubia Hanciau)
Em um momento em que a propriedade intelectual sofre rudes assaltos na Internet, o estatuto do autor presta-se a uma gama de atualizações possíveis, que sua assinatura apenas não mostra o suficiente. Elas vão do travestissement à negação, passando pelo diálogo que convidam a fazer a imitação assumida, a paródia, o plágio, o pastiche e a “braconagem”. A definição de “braconagem” – “caçar furtivamente em terreno vedado” (Grande Dicionário de Domingos de Azevedo) –, possibilita identificar estratégias de resistência ou de sobrevida empregadas pelo sujeito (perspectiva individual e coletiva) em seu meio. Variadas em gênero e número essas estratégias – que têm por característica comum serem contraprodutivas aos olhos da autoridade estética, política e econômica –, declinam-se porém de acordo com os contextos. Empregado por Michel de Certeau, o conceito foi desenvolvido por Simon Harel, para quem “braconagem é um novo modo de apropriação do lugar”. 
Propõe-se para este projeto refletir sobre essa questão que contém aspectos ligados ao tema das mobilidades transculturais nas Américas, do território e da cultura em prática literária das últimas décadas do século XX e deste início de século XXI. Atividade ao mesmo tempo ilícita e contingente, a braconagem como invasão, é transbordamento, camuflagem que permite ao sujeito imiscuir-se “no território do outro, sujeitando-se aos perigos” (Harel, 2005). Mas embora se situem em território proibido, espoliem e usufruam desse território, para alguns escritores a braconagem representa em sua “pequena escala” um ato significativo, que incita uma determinada poética, levando a compreendê-la como “transferência cultural”, astúcia, fato de conjuntura, em nova acepção ou oposição àquela dos estados-piratas, que canibalizam, exploram, desviam as redes econômicas oficiais.

 

CIRCULAÇÕES URBANAS (Maria Bernadette Porto)
Apoiando-se no conceito de lugar – questão fundadora da história da cultura -, as reflexões a serem desenvolvidas privilegiam práticas espaciais na paisagem urbana, reinventada por novas artes de fazer e de escrever próprias da contemporaneidade.  Trata-se de investigar realizações das escritas em trânsito em obras produzidas no Quebec e no Brasil e, mais especificamente, de analisar a experiência dos deslocamentos traduzida por uma estética que valoriza o fugaz, o transitório, o fragmento, os encontros fortuitos, os roteiros da afetividade e a presença do acaso no processo de apropriação de um território. Dois eixos nortearão a leitura proposta: após uma brevíssima incursão por obras de Régine Robin (Cybermigrances: traversées fugitives) e de Lise Gauvin (Un  automne à Paris) em que se delineiam trajetos feitos a pé ou em meios de transporte (no caso de Robin que se inspira em Georges Perec e no grupo Oulipo), pretende-se dar realce a textos literários em que a travessia da cidade e das identidades se dá no interior de táxis. Obras de Pierre-Léon Lalonde, Stanley Péan, Émile Ollivier, Antônio Torres e Mauro Castro compõem o corpus inicial proposto. Ao se escolherem dois modos de se percorrer as ruas, pensa-se em formas diferenciadas de se ler-viver a cidade e de aí se inscrever, e ainda na possibilidade de se elegerem novos lugares da enunciação no próprio ato de se deslocar no tecido urbano. 
Do ponto de vista metodológico, buscar-se-á apoio em pistas fornecidas por Michel de Certeau, Pierre Ouellet, Simon Harel, Georges-Hubert de Radkowski, Marc Augé, Michel Serres, Jacques Derrida e Jean-Luc Nancy. Situando-se no entrecruzamento de domínios plurais do conhecimento, a idéia de lugar permite rever as noções expressas pelos verbos “habitar”, “percorrer”, “permanecer”, “circular”, “flanar” e reler os vínculos entre a consciência do existir e o sentimento de localização.
Palavras-chave: Trânsito, Práticas espaciais, Imaginários do lugar

 

DERIVA (Licia Soares de Souza)
O artigo pretende examinar a situação de deriva na qual se encontram alguns personagens marginalizados da literatura brasileira e quebequense. Inicialmente, a figura da deriva deverá ser descrita com base em dois trabalhos fundamentais:  Dany Laferrière, La dérive américaine  (2003), de Úrsula Möser e  La ligne brisée, Logique de l’imaginaire (2008), de Bertrand Gervais. No primeiro, a figura é apresentada de acordo com seu roteiro semântico em francês (perdre de vue la rive) que conduz um indivíduo a se afastar se seu caminho, navegando ao gosto de ventos e mares (desenvolvimento de deriva dos lugares e dos tempos). No segundo, a figura está relacionada com o mito de Teseu que mata o monstro Minotauro no labirinto. Vinculada assim à representação de cenas de violência, a figura da deriva se presta à descrição de seres marginalizados que, além de terem perdido seus caminhos e suas memórias no labirinto, são levados a praticarem crimes e massacres. Tentando investir a figura mítica da deriva labiríntica de formações sócio-discursivas, que emergem na sociedade neo-liberal, altamente ligada aos apelos incessantes para o consumo, buscaremos exemplos nos personagens quadrilheiros e vagabundos de narrativas como  Cidade de Deus, Elite da Tropa, Abraçado a meu rancor, Manual prático do ódio, O Rio é assim, Cenas da favela, as melhores histórias da periferia brasileira. No Québec, servirão de exemplo personagens das gangs de rua, drogados e matadores psicóticos, que atemorizam a sociedade, em narrativas como Emma des rues, Les Failles de l’Amérique, Squeegee, Cote-des-nègres, Le souffle de l’Harmattan.Finalmente, buscaremos estabelecer uma reflexão sobre o modo de apresentação da figura da deriva, em duas sociedades distintas, com características sócio-históricas diferenciadas, mas que sofrem as conseqüências nefastas do modo de funcionamento do mundo capitalista contemporâneo.

 

DESLOCAMENTO/DESPLAZAMIENTO/DÉPLACEMENT/DISPLACEMENT  (Elena Palmero)
A noção de deslocamento, clássica nos estudos da modernidade e em permanente movimento significativo no contexto atual, será discutida neste ensaio a partir de uma dupla perspectiva. Por uma parte interessa a revisão teórica do conceito no âmbito da crítica cultural e dos estudos comparados contemporâneos, por outra, recuperar a noção para o estudo de escritas nascidas da experiência do exílio, da diáspora e de outras formas de mobilidade cultural. Aportes fundamentais para uma definição e sistematização teórica do conceito como os de James Clifford (1995, 1999), Patrick Imbert (2003, 2005), Ricardo Piglia (2001) ou Ana Pizarro (2008) serão retomados aqui para estudar um sistema literário que, produzido por uma comunidade emigrada de origem hispânica, vem se configurando com visibilidade no âmbito das letras do Canadá, a literatura hispano-canadense. Centralizarei a análise, para melhor fundamentação, na obra poética de Nela Rio, escritora argentino-canadense que com extraordinária originalidade articula sua práxis artística com uma sistematização teórica em torno do que a própria Rio chama de Poética del Desplazamiento.Concebido o deslocamento como cronotopo cultural, lócus enunciativo, poética da escrita e, também, como paradigma de análise para pensar hoje as literaturas das Américas, assumo o estudo dessa práxis artística, em suas complexas estratégias de mobilidade, contaminação, opacidade e plurivocidade textual, com a certeza de encontrar na noção de deslocamento uma importante fenda para compreender os múltiplos desvios que caracterizam as identidades transculturais e em movimento do nosso tempo.

 

DÉTOUR/RETOUR -  (Alcione Correa)
Em Le discours antillais (1981), Édouard Glissant estabelece uma distinção necessária entre dois tipos de povoamento, odéplacement (relativo a comunidades que, deslocando-se de seu território a um outro, mantêm ou buscam manter a integridade de sua cultura) e a traite (relativa a comunidades que, quando de seu deslocamento a um outro território, não têm a possibilidade de portar consigo sua cultura), ligada frequentemente a processos escravagistas. O autor demonstra que no caso da traite e, especificamente, no que diz respeito ao processo escravagista nas Antilhas francófonas, as comunidades em questão estiveram, desde o princípio, desprovidas das condições necessárias à manutenção de sua cultura “de origem”, a seus antigos valores anteriores ao processo colonizador, restando-lhes apenas vestígios (traces, materiais ou espirituais) de suas culturas. Face a tal impossibilidade, abriu-se espaço para novas culturas, baseadas sobretudo em traces e  adequadas às condições disponíveis em seus novos territórios (GLISSANT, 2006, p. 16-18).
Fundamentando esse processo de constituição de novas culturas que, cabe salientar, não são homólogas tampouco redutíveis às culturas anteriores ao processo escravagista, Édouard Glissant considera necessário delimitar o que entende por técnica, definindo-a como a mediação de uma coletividade com seu meio (GLISSANT, 1981, p. 29), para propor que o “désintéressement technique” nas Antilhas francófonas proporcionou uma tendência à mímese e à aproximação com a cultura dita ocidental, sobretudo a cultura francesa. Diante desse quadro, o autor apresenta duas respostas (pulsões) observáveis nas Antilhas francófonas: o Retour, inicialmente caracterizado como uma consagração da permanência, da não-relação; e o Détour, inicialmente caracterizado como um encadeamento e justaposição de negatividades assumidas enquanto tais.
Visando ao estudo dessas duas noções propostas por Édouard Glissant, o presente artigo propõe, inicialmente, uma leitura e comentário de suas definições nas obras Le discours antillais (1981), Poétique de la Relation (1990) e Introduction à une poétique du Divers (1995), com vistas a uma análise literária de duas obras do poeta Aimé Césaire (1913-2008): o poema Cahier d´un retour au pays natal (1939) e a peça Une tempête (1969). Por fim, e de modo complementar ao âmbito do projeto de pesquisa “Iimaginário insubmisso e mobilidades transculturais nas Américas”, o presente artigo retoma as noções inicialmente apresentadas, discutindo sua contribuição para os modos de pensar os processos contemporâneos.

 

DIÁSPORA (Aimée G. Bolaños)
O conceito de diáspora, no contexto pós-colonial, alcança renovados significados na historia da cultura, além do paradigma moderno de exílio e regresso. As propostas de Edward Said, James Clifford, Gayatri Spivak, Atvar Brah, Sygmunt Bauman, Caren Kaplan, Stuart Hall, Rafael Rojas, Ambrosio Fornet, Gustavo Pérez Firmat, Jorge Luis Arcos, entre outros, constituem notáveis contribuições à teoria cultural da diáspora, hoje em debate. Neste sentido, estudo os diversos entendimentos de viaje e deslocamento como modalidades discursivas metafóricas da modernidade tardia, assim como e a noção de sujeito cosmopolita migrante, inerente ao mundo transnacional, e suas novas identidades transculturais, que se projetam em comunidades imaginadas, capazes de criar vínculos entre pessoas de origem comum em diferentes lugares, não mais reprodutoras do modelo nacionalista. Com a perspectiva deste matizado corpus teórico, principalmente no que tem a ver com as estratégias estéticas de abertura, fluxo, ambigüidade, sincretismo, porosidade e mutação, inerentes á dimensão diaspórica, leio um conjunto de textos representativos da prática criativa da poesia feminina cubana -Juana Rosa Pita, Carlota Caulfiel e Alina Galliano- na sua diversidade irredutível, com seus múltiplos focos de produção dispersos pelo mundo, analisando, sobre tudo, as escrituras do eu na destrascendentalização das origens na ficção, segundo Spivak, tarefa fundamental da diáspora contemporânea.

 

DESTERRITORIALIZAÇÃO / RETERRITORIALIZAÇÃO (Ana Lucia Paranhos)
Examinar os neologismos "desterritorialização" e "reterritorialização", lançados por Gilles Deleuze e Félix Guattari na obra O Anti-Édipo (l972) e considerar sua aplicabilidade na obra ficcional Avril ou l'Anti-passion (l990), do escritor ítalo-quebequense Antonio D'Alfonso. Este romance constitui-se no primeiro volume da trilogia em torno do personagem Fabrizio Notte e servirá como suporte à reflexão sobre os termos deleuzianos que, evocando tanto espaços geográficos e históricos, no seu sentido restrito, como psicológicos ou mentais, no seu sentido figurado, chamam a atenção para o momento da passagem de um para outro "espaço" e a transformação que essa passagem acarreta.

 

FLÂNERIE (Henrique Bordini E Zilá Bernd)
Através de inúmeros fragmentos, Walter Benjamin analisa elementos da obra de Charles Baudelaire e reflete sobre alguns aspectos interessantes da figura do flâneur. Para Benjamin, o flâneur é um caminhante descompromissado, mas altamente observador, que no seu vagar pela cidade vai coletando sensações e experiências diversas. À medida que caminha, o andarilho é conduzido pela rua em direção a tempos passados; vagando entre as multidões, o flâneur vai analisando o coletivo da cidade, mas jamais é absorvido por ele. Nunca perde a sua individualidade, logo ele é um observador distanciado da multidão, apesar de estar, normalmente, imerso nela. A cidade para ele é uma paisagem que se move ao sabor de seu andar, que só termina quando se recolhe à solidão de seu quarto. Com  o surgimento das galerias, o flâneur vê um mundo inteiro num espaço fechado, por onde ele vagueia captando todos os acontecimentos de modo simultâneo: o longínquo dos países ou das épocas estão disponíveis para ele num mesmo instante. Ele é olhado como um  suspeito, por não estar a fazer nada, mas é também difícil de ser encontrado, pois a multidão o oculta. Sua característica maior é a perambulação, sem fixar-se em alguém, mas captando tudo o que o cerca com aguda sensibilidade. Na obra de Julio Cortázar, o Jogo da Amarelinha, a personagem Horácio apresenta algumas das características do flâneur. É enquanto caminha pelas ruas de Paris que surgem os seguintes aspectos: lembranças fluem em sua mente, alavancadas por sensações familiares; recorda-se de Buenos Aires, sua cidade natal, enquanto observa a Cidade Luz. Por se passar em mais de uma cidade, o romance acaba mostrando as sensações que Horácio experimenta em situações diversas ao vaguear pelas ruas. 
Os autores que servirão de base para este artigo serão: Julio Cortazar (o Jogo da Amarelinha), Walter Benjamin (Passagens), Sandra Pesavento ( O imaginário da Cidade)

 

LIQUIDEZ / FLUIDEZ (Carlos E. M. Scholles)
Traçar o conceito de Liquidez apresentado por Zygmunt Bauman em suas diversas obras acerca dos ‘tempos modernos’. Analisar a proposta da passagem de uma modernidade ‘sólida’ para uma ‘líquida’, em que as instituições e as identidades se dissolvem e se reformulam a todo instante. Verificar como essa dissolução é evidente no texto literário, através do estudo da obra do autor canadense Thomas King (1941 -): Green Grass Running Water (1998) (escolha temporária). Finalmente, relacionar as idéias das obras ‘líquidas’ de Bauman (Tempos Líquidos, Modernidade Líquida, Medo Líquido, Vida Líquida e Amor Líquido) com a proposta de mobilidade cultural e como elas podem contribuir para o avanço dos estudos da identidade nas Américas.

 

IDENTIDADES TRANSNACIONAIS  (Cícero Lopes)
Traços identitários transnacionais na cultura dos gaúchos de línguas portuguesa e espanhola
O nascimento, a constituição social e a mobilidade territorial dos gaúchos constituem caso exemplar de transnacionalidade, em que a cultura elabora a identidade possível. Para além da criação dos estados-nações, a figura do gaúcho exemplifica a possibilidade da nação cultural, na acepção romântica. Não há fronteiras nessa cultura, porque a mobilidade contínua assegura a permanência do reconhecimento das marcas de identidade. As línguas portuguesa e espanhola, ao invés de separar, trançaram a identidade do gaúcho ao longo das transformações.

 

IMAGINAÇÃO E MOVIMENTO (Melissa Rubio e Zilá Bernd)
Partir da obra de Gaston Bachelard (O ar e os sonhos; ensaio sobre a imaginação do movimento, 2001, 1. Ed. 1943) que desenvolve, com grande erudição, as relações entre imaginação e mobilidade. O artigo pretende aplicar esses pressupostos teóricos à leitura de um romance de Dany Laferrière a definir.

 

MEMÓRIA E MOVIMENTO (Raquel R. Souza) 
A memória, tal como é pensada pela objetividade científica da Sociologia e da Psicanálise, não consegue abarcar as muitas possibilidades significativas para  construções de imagens brotadas da memória individual, que os textos literários, em especial a lírica sobre a infância e as autobiografias, apresentam. Para que se torne possível a articulação entre memória e movimento, este ensaio pretende ser construído buscando outra razão, a razão do imaginário, tal como a propõe Gilbert Durand. Tendo, portanto, a Filosofia do Imaginário como base argumentativa, as propostas de leituras serão encaminhadas a partir dos conceitos de devaneio, de sonho, de memória, de infância de Gaston Bachelard, desenvolvidos em seus estudos relativos aos elementos cosmogônicos na formação de uma “imagem material”, com especial enfoque para A poética do devaneio, tomando como exemplo de tais processos alguns poemas retirados de Poesia e sua autobiografia Segredos de infância, de Augusto Meyer.

 

METÁFORA (Nícolas Alaor França Poloni E Zilá Bernd)
A metáfora, conceito carregado de significações, parte inicialmente de uma figura retórica, associando a palavra utilizada não ao seu sentido literal, mas ao seu sentido figurado, sua imagem simbólica. Analisarei a metáfora sob dois aspectos. Primeiramente, a perspectiva lingüística, trabalhando o conceito como uma figura de linguagem. Depois, parto para uma perspectiva literária, trabalhando a metáfora de acordo com suas características de símbolo e alegoria. Para isso, utilizo como corpus o romance A Versão de Barney (1997), do autor canadense de origem judaica, Mordecai Richler (1931-2001). Busco na figura do judeu Barney, personagem que escreve sua autobiografia, em que sentido se dão as metáforas presentes, como são trabalhadas e quando e por que são consideradas metáforas. Recorro principalmente à questão judaica da personagem, analisando quais imagens e símbolos representantes dessa religião/cultura são utilizados na construção das analogias e com que fundamento. Baseio-me em (autores a serem definidos) como referencial teórico.

 

MIGRAÇÃO/ MIGRÂNCIA/ERRÂNCIA (Rita Olivieri-Godet)
Exame das diferentes figurações da errância na literatura interrogando os imaginários do pertencimento no contexto das mobilidades culturais das sociedades atuais, a partir de contribuições teóricas da crítica cultural e dos estudos de literatura comparada: Pierre Ouellet (L’esprit migrateur; Hors-temps. Poétique de la posthistoire); Pierre Ouellet et Simon Harel (Quel autre ? L’altérité en question) ; Simon Harel, Les passages obligés de l’écriture migrante), Patrick Imbert (Trajectoires culturelles transaméricaines); Jean Bessière (« Y a-t-il des limites de la littérature? La littérature contemporaine et le destin paradoxal des frontières », in Jean-François Côté et Emmanuelle Tremblay ,org. Le nouveau récit des frontières dans les Amériques); Zilá Bernd (Imaginários coletivos e mobilidades (trans)culturais). Para dar conta das diferentes figurações da errância, o ensaio será organizado em torno dos seguintes eixos:1-Errância e deslocamento; 2- Errância e escrita. 
1-Errância e deslocamento. Focalizarei a dimensão exterior da errância como deslocamento físico, à qual virá se sobrepôr a dimensão interior e ontológica da errância como busca de um alhures, viagem existencial imprevisível em torno de si mesmo, migrância, deriva. A errância, atualizada na experiência do exílio, explora as relações identidade/alteridade nas representações dos processos de migração. Caberá aqui discutir a imagem positiva da errância como desterritorialização de pertencimentos que se manifesta em dois níveis: um primeiro aponta para um processo de hibridismo e de crioulização culturais que se constrói na tensão entre referentes culturais locais e estrangeiros sem no entanto abdicar de um território, de uma memória do pertencimento tal qual se manifesta na obra de escritores brasileiros descendentes de imigrantes (Milton Hatoum, Dois irmãos; Nélida Piñon, A república dos sonhos); um segundo nível, representado pela escrita migrante de Sérgio Kokis, escritor brasileiro naturalizado canadense, radicaliza a experiência da errância nos romances Errances e La gare, e projeta a figura do sujeito desenraizado na sua estrangeiridade ontológica. 
2-Errância e escrita. Enfim, a partir da leitura de O enigma de Qaf de Alberto Mussa, tratarei da errância como metáfora da escrita literária, arqueologia da palavra sempre ausente e inacessível, viagem em busca de dizer o indizível do Outro (Jean Bessière); errância enquanto metáfora do ato de descentramento próprio da criação artíistica (Sergio Kokis, Les langages de la création)

 

MOVÊNCIA, NOMADISMO  (Zilá Bernd)
Serão utilizados como pressupostos teóricos as obras de M. Maffesoli (Du nomadisme; vagabondages initiatiques), E. Glissant (nomadisme en flèche) et Pierre Ouellet (L´esprit migrateur), além dos números especiais da revista Magazine Littéraire (n. 353 L´errance, de Cervantès aux écrivains voyageurs; e n.432 Les écrivains voyageurs: de l´aventure à la quête de soi). Após a exposição desses conceitos-base da pós-modernidade, os mesmos serão observados em autores representativos da francofonia americana (Dany Laferrière, Raphael Confiant  e Patrick Chamoiseau).

 

PASSAGENS  LINGUÍSTICAS (Valéria Brisolara)  
A história recente da literatura é marcada pelo exílio e migração e, conseqüentemente, pelo abandono da língua materna em favor de uma língua de sobrevivência ou até de amor. Isso faz com que vários escritores adotem uma nova língua literária de escrita ou até que muitos indivíduos tornem-se escritores após serem trespassados por uma segunda língua. Essa condição migrante de muitos escritores no começo do século XX fez com que a migração e o exílio se tornassem temas recorrentes dessas obras literárias e fez surgir um novo tipo de escrita. Essa mobilidade espacial e temporal traz consigo a mobilidade linguística, o abandono da língua materna e seu luto em detrimento de uma língua de sobrevivência. O presente artigo tem por objetivo discutir o fenômeno da mobilidade lingüística e espacial na literatura contemporânea, tomando por base e discutindo conceitos como o de “literatura migrante” e “Exílios” de Edward Said. Serão analisadas obras de autores migrantes como Ariel Dorfman e Salman Rushdie e serão estudados os efeitos dessa mobilidade nos narradores e protagonisas e suas relações com a linguagem.

 

ROMANCE  GEOGRÁFICO – (Rachel Bouvet)
O artigo tratará do “romance geográfico” Hippolyte's Island (traduzido em francês com o título de Terrae incognitae) da escritora-ilustradora Barbara Hodgson, uma escritora canadense de Vancouver, que viaja muito. O romance relata uma viagem através das Américas, desde a Colúmbia Britânica até as Ilhas Aurora (presentes em mapas antigos, mas que desapareceram após nas represetnações modernas), que se situariam perto das Ilhas Falkland e da Antártica, a oeste da Patagônia. O referido romance contém inúmeras ilustrações: mapas, desenhos, fotos, manuscritos... que dão informações sobre o percurso do herói. A obra situa-se entre o romance e a narrativa de viagem.

 

VARIAÇÕES (Zilá Bernd)
Variações em linguagem musical corresponde a um tipo de composição cujo material básico (ária) é alterado através de repetições e reiterações com mudanças que podem ser harmônicas, melódicas ou contrapontísticas. Tema com variações é, portanto, uma forma musical onde há lugar para improvisações e onde vai se alterando sucessivamente o tema principal. As Variações Goldberg de J.S. Bach representam o ponto mais alto a que chegou essa forma de composição musical. Nancy Huston, em Les Variations Goldberg(1981), que traz a indicação de que se trata de  “une romance” (que, em língua francesa, corresponde a “modelo narrativo e ideológico da cultura  dominante”, da cultura dita de massa, com conotação negativa) assume claramente a intenção de transportar para a literatura uma forma musical, baseada fundamentalmente na mudança, na passagem de um estado a outro, logo na mobilidade.  Luiz Antonio de Assis Brasil, em sua trilogia intitulada Viajantes ao Sul (O pintor de retratos, 2001, A margem imóvel do rio, 2003, e Música perdida, 2006), reitera ao final do último volume que os três romances constituem-se em variações sobre um tema “e variações podem ser infintas”. Bernhardt Thomaz, em O Náufrago (COMPLETAR)  Note-se que ambos os autores são, além de escritores, músicos. O presente artigo vai tratar das “variações” como uma das formas da mobilidade cultural, já que, em seu sentido primeiro, variação corresponde “a ato ou efeito de variar, conjunto de mudanças que afetam alguma coisa”. Deverá ser possível concluir que a variação está associada ao caráter insubmisso dos escritores focalizados e da literatura contemporânea em geral.

 

Índice de autores teóricos:
Ana Pizarro 
Ambrosio Fornet(*) 
Atvar Brah(*) 
Caren Kaplan(*) 
Édouard Glissant(1928) 
Edward Said(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(\(1935 – 2003) 
Félix Guattari(1930 – 1992) 
Gaston Bachelard(1884 – 1962) 
Gayatri Spivak(1942) 
Georges-Hubert de Radkowski 
Gilbert Durand(1921) 
Gilles Deleuze(1925 – 1995)
Gustavo Pérez Firmat(*)
Homi K. Bhabha
Jacques Derrida 
James Clifford(1945) 
Jean-Luc Nancy
Jean Paul Sartre
Jorge Luis Arcos 
Julio Cortázar(1914-1984)
Lise Gauvin
Madeleine Ouellette-Michalska
Marc Augé 
Michel Maffesoli(1944)
Michel de Certeau
Michel Serres
Patrick Imbert 
Pierre Ouellet(1950) 
Rafael Rojas(*)
Raphael Confiant
Régine Robin
Ricardo Piglia
Serge Doubrovsky 
Simon Harel 
Stuart Hall (1958) 
Walter Benjamin(1892 – 1940)
Zygmunt Bauman(1925)

 

Índice de autores ficcionais
Alina Galliano 
Antonio d´Alfonso(*) 
Antônio Torres 
Augusto Meyer (1902 – 1970)
Bertrand Gervais
Carlota Caulfiel 
Dany Laferrière(1953) 
Émile Ollivier
Juana Rosa Pita 
Luiz Antonio de Assis Brasil(1945)
Mauro Castro
Milton Hatoum
Mordecai Richler
Nancy Huston
Nela Rio 
Patrick Chamoiseau(1953)
Pierre-Léon Lalonde 
Raphael Confiant(1951)
Régine Robin
Stanley Péan
Thomas King 
Úrsula Möser

 

Universidades envolvidas
Centro Universitário Lasalle
Universidade Federal do Rio Grande
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Universidade Federal do Piauí
Universidade Federal da Paraíba
Universidade Federal Fluminense
Universidade do Estado da Bahia
Université de Haute Bretagne – Rennes 2
Université du Québec à Montréal

 

Indice remissivo
Viagem (narrativa de) – ver romance geográfico
Transcendência – ver Translação
Nomadismo – ver Movência
Errância – ver migração
Movimento – ver Memória e Movimento ; Imaginação e Movimento
Retour / ver Détour
Reterritorialização – ver Desterritorialização
Deambulação – ver deriva
Percurso – ver romance geográfico

 

IMAGINÁRIO INSUBMISSO: RELEITURA COMPARADA DA MOBILIDADE CULTURAL NAS AMÉRICAS

O projeto Imaginário insubmisso: releitura comparada da mobilidade cultural nas Américas justifica-se pela necessidade de proceder à abordagem analítica das configurações míticas que dão forma ao imaginário coletivo das Américas as quais foram repertoriadas de modo extensivo no projeto anterior (DFMLA). O levantamento exaustivo efetuado no projeto anterior revelou que, apesar da heterogeneidade das figuras e mitos que povoam o imaginário dos americanos, sua articulação permite, de um lado, esboçar os caminhos e descaminhos dos processos de construção de identidades culturais e nacionais e, de outro, apontar os delineamentos de uma possível identidade mais abrangente: a americanidade.
A pesquisa analítica e comparativa da presente proposta reforça as linhas de pesquisa dos Estudos Culturais (PPG-Letras/UFRGS) e das Relações culturais e literárias interamericanas (ANPOLL) e se justifica pela carência de pesquisa comparada tomando textos das Américas – ao mesmo tempo – como referencial teórico e como corpus literário.

Foi possível observar, através da leitura dos 110 verbetes, uma grande força articuladora : o caráter insubmisso, transgressor e móvel de grande parte das figuras estudadas. Trata-se agora de, refletindo sobre esse inédito acervo, focalizar a articulação de mitos, contra-mitos e utopias que, no espaço das três Américas, ilustram a formação de um imaginário caracterizado pela insubmissão, pelas transferências e passagens culturais, enfim por uma intensa mobilidade cultural. 
O Dicionário Petit Robert, associa insubmissão à desobediência, indisciplina, rebelião, revolta. O insubmisso é aquele que se recusa submeter-se, afirmando sua igualdade: “L’insoumis refuse la servitude et s’affirme l’égal du maître” (A. Camus).

 

Acesse a íntegra do projeto:

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> Em Francês

 

Atividades

- Organização do Colóquio Brasil/Canadá: Mobilidades (trans)culturais nas Américas, dias 25 e 26 de março no ILEA, Campus do vale, UFRGS

- Publicação das atas do colóquio sob o título: imaginários coletivos: mobilidades (trans)culturais (Nova Prova/PPG-Letras/UFRGS).

- Lançamento do n. 8 da revista Interfaces Brasil/Canadá. Número temático sobre Mobilidades culturais

- Participação no evento Le Canada et les Amériques: perspectives pluri-isciplinaires sur la transculturalité, na York University (Glendon College, Toronto, de 24 a 25 de abril 2008.

- Seminário de Pós-Graduação (2 créditos) sobre Mobilidades culturais, a realizar-se de abril a junho de 2008, no PPG/letras da UFRGS.

- Publicação de BERND, Z. Américanité et mobilités transculturelles. Quebec: presses de l´Unviersité laval, 2009.

- Em preparação: Insubmissão e mobilidade: percursos americanos (Tomo, 2010)

 

Zilá Bernd 
Coordenação geral do projeto

Projetos Concluídos

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